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Quando não se está levando vantagem sobre alguém, se sente como se alguém estivesse levando vantagem sobre ele.
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A garota gostava da conversa mas não conseguia deixar de reparar que lhe faltava uma perna.
Conversaram mais, horas, dias e semanas, mas a visão que ela buscava e não tinha era o que mais importava.
O garoto gostava da conversa mas percebia que algo não funcionaria.
Imaginava que podia ser a sua perna perdida, sem motivo, um destino que pra sempre o marcaria.
Duas boas almas se encontravam, mas o destino tratou de lapidar os fatos e exigir que os corações falassem mais alto e só assim esses dois poderiam dar em algo.
Mas nada aconteceu. A ciência e a natureza nos fazem o que somos e não adianta falar de amor depois que o corpo apodreça.
E foi isso o que aconteceu, o corpo venceu a alma, que solitária partiu, perdida em livros, filmes e músicas, onde sempre existiu.
Melancolia ou pura ironia. Uma seleção natural e espiritual. Um encontro de perdidos, que um dia se acham e não mais se sentirão esquecidos e excluídos.
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Não adianta forçar algo que a natureza sempre vai controlar.
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Os ambientalistas deviam saber que ao longo do processo de evolução o ser-humano passou a precisar de dinheiro para sobreviver.
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Enquanto o sol esquentava o mar se agitava e todo o reflexo na areia branca me cegava.
Me apoiei na cadeira, mas não conseguia senti-la, parecia flutuar, quente numa sopa a cozinhar.
As idéias escorriam como suor e a única coisa que me acordava era aquela mulher que passava.
As vozes eram ruído, os latidos pequenos grilos e o som das ondas reinava.
Entre os dedos dos pés pequenos grãos de areia se esfregavam, penetravam por baixo das unhas e ali se instalavam.
Os olhos ardiam enquanto alguém falava, me explicando algo que me desorientava.
Pensava no que queria, ou apenas sentia que não existia enquanto era completamente absorvido por toda aquela calmaria.
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Para começar um fogo necessita-se de muito calor. Não adianta colocar um alcoolzinho, uns foguinhos embaixo da lenha e esperar que isso funcione.
No início você terá que se dedicar.
Tenha em mãos os materiais básicos para a explosão, ou seja, gravetos secos, folhas de jornal e algo para assoprar ou injetar ar.
Oxigênio é a regra. É ele que queima, a lenha arde em labaredas.
Selecione sua lenha, de preferencia madeira não úmida. Empilhe em forma de pirâmide, ou uma cabaninha indígena, pois isso ajuda na penetração do ar entre as toras e uma concentração de calor, como uma seta para cima, que empurrará a fumaça nessa direção.
Comece o fogo bem no centro dessa pirâmide de toras e não tenha dó de deixá-lo enorme. Coloque gravetos, folhas de jornal e vá alimentando o fogo. Intercale com abanos ou injeções de ar e não deixe o fogo abaixar.
Esse fogo efêmero tem que arder absurdamente e fazer um calor poderoso, caso contrário as grandes toras nunca irão queimar.
Quando você reparar que as toras estão produzindo gigantes labaredas, fique feliz, deu certo.
O fogo enorme até assobia, esquenta e ilumina e a única coisa que você deve ficar atento é em alimentá-lo, levando em conta o seu desejo de intensidade versus longevidade.
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John precisava se encontrar. Em sua curta vida já havia feito muitas coisas, ou pelo menos acreditava ter feito, e agora encontrava-se confortavelmente sem objetivos.
Pensativo diante dos acontecimentos à sua volta permanecia imobilizado e sem ação. Suas atitudes eram poucas, se restringia à discutir e se alimentar.
As insatisfações davam lugar à nostalgia e sua barriga crescia enquanto o cabelo caía. Medalhas de honra ao mérito enfeitavam a sala e fotos de conquistas passadas sempre o deixavam sem fala.
Conquistas era o que faltava. Uma faísca no meio dessa flatulência encorpada provocaria a perfeita explosão em busca da liberdade sonhada.
O medo, a dor, o risco e o conflito. A ambição particular sem a vaidade banal de quem apenas precisa de um pouco de moral.
A força que lhe falta vem do desejo que se apaga. Reconhecer a felicidade não basta, essa pode ser a armadilha fatal, o ópio geral, a alma vendida ou roubada, perdida na esquina, sequestrada e amordaçada.
A conquista de John é a conquista da vida. É a certeza da morte definitiva.
John precisa viver, sem esquecer de sua história bonita. John não pode parar, deve arriscar, pois quando o sossego de verdade chegar só lhe restará sonhar.
Portanto acorde, caro John, não há mais tempo a desperdiçar.
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Por hora sinto que algumas coisas estão ficando complicadas. Deveriam fluir sem muito raciocínio, ao natural, como um rio.
O rio continua. Passa pelas pedras, pelos desníveis, pântanos, corredeiras.
Flui e nunca pára enquanto houver essa fonte inesgotável de água, que o empurra em direção ao mar, e do mar à chuva e da chuva ao rio. Um ciclo.
Na nascente de meu rio não chove. Preciso bolar planos de engenharia para conseguir seguir até o mar sem secar.
A natureza é assim. A gente tenta continuar, mas o máximo que vamos conseguir fazer é retardar um pouco o que já está para secar.
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Uma fria quinta-feira em São Paulo promete uma noite inesquecível na Rua Augusta; o show do Television numa balada. Digo numa balada pois não é propriamente uma casa de show, é um lugar pequeno onde normalmente as chatíssimas bandas do cenário brazuka costumam se apresentar, ou seja, oportunidade perfeita para assistir uma grande e excelente banda num contexto mais casual.
Os caras sobem ao palco por volta das 23:00, assumem seus postos e começam. Um som relativamente simples, guitarras limpas e cheias, baixo encorpado-pulsante e uma bateria original, forte. Dava pra sentir o som como se fosse um ensaio da banda, sem muitas produções e preocupações, o artista alí na sua frente, praticamente nú !!!
Começaram tocando músicas das antigas, pra conquistar confiança do público, mas tinha algo estranho… apesar de estar tocando bem, não soava com muita espontaneidade, parecia meio travado e pra variar os técnicos da casa, além de ruins e provavelmente acostumados à ajustar o som de bandas igualmente ruins, demoraram à acertar o som de uma banda realmente boa e cheia de dinâmicas. Isso fez com que sentíssemos algo pesado no ar. Mas conforme eles foram tocando músicas novas, que tinham mais a ver com o momento deles, tudo foi mudando.
A própria banda se encontrou e cresceu. Os músicos começaram a voar e improvisar nos dando um raro momento de verdade e sinceridade artística que poucas bandas ousam fazer. O show deixou de ser um revival de discos antigos e fomos presenteados com músicas novas e inéditas com uma entrega espetacular por parte dos músicos.
Daí pra frente o show só foi ficando melhor, o pessoal da mesa de som conseguiu deixar a coisa um pouco melhor, mas tudo bem, o ar de improviso e de coisa meio mal acabada nos trazia pra realidade das imperfeições, tornando tudo mais humano e emocionante.
O lance foi que estávamos numa balada, tomando uma breja e com o Televison tocando. Uma banda que apesar dos anos de carreira não se dispôs a fazer cover de suas antigas canções pra puxar o saco do público ou se envaidecer de glórias do passado. Eles subiram ao palco e tocaram de verdade, e puderam proporcionar a nós, brazucas carentes de boa música ao vivo, uma grande noite de rock com sons de guitarra, baixo, voz e bateria tão intensos, simples e diretos que certamente os espectadores-ouvintes mais sensíveis jamais esquecerão.
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agora compreendo meus sonhos bizarros
era eu sendo avisado
manipulações contínuas
tramas de novelas vazias
uma fantasia a se realizar
como um verme a se rastejar
comendo pelas beiradas
disfarçado de gato, mas era rato
agora compreendo meus sonhos estranhos
eu estava muito rápido e avançando
mas a corrida já tinha terminado
tudo que queria havia conquistado
posso parar de correr e comemorar
se lançar aos braços da mulher amada
e amar, amar, amar…
agora compreendo com que sonhava
era dela que eu lembrava
de minha única e preciosa mulher
que me segue e me reconhece
que me ama sem precisar de drama
ela merece minha poesia mais que ninguém
meu amor, abra os braços
me envolva todo e completo
seremos nós dois, seja no céu, seja no inferno.



